insónias
Hoje decidi, dar uma volta, virar tudo ao avesso, cortar nas minhas crenças e descobrir o que não conhecia. Parti. Lancei-me no ar da noite, em busca de algo que não sei bem o quê. Saí de casa e senti o hálito frio da noite esbarrar-se no meu rosto. Foi a primeira sensação que tive quando saí de casa. Gostei imenso. Senti-me vivo, senti que era pertença do mundo, e se calhar, senti-me um pouco feliz. Apesar de achar que o mundo era mais mundo, quando não tecia nada em meu redor, sem a complexa teia de relações humanas que se tecem à minha volta, porque nessa noite eu só queria voltar para perto de quem sou, longe das hostilidades, fúrias e intrigas. O único pensamento que retive, que ainda me recordo do dia que passou, foi a entrevista a um Artesão na rádio, em que o tema era a Arte. Homem da rádio perguntou-lhe, obviamente, o seguinte: - Como vive a arte e o que pensa da arte que produz? -Arte é saber viver - disse ele - e quem sabe viver, de certo modo, é um artista. Como para mim é difícil viver, não sou um artista, mas sim um artesão. Vivo num mundo que me agride, insulta e controla. Para poder criar, eu tenho que viver em permanente desobediência civil. Deu-me a breve impressão, que o homem da rádio não percebeu, nem o que perguntou, nem o que ouviu como resposta, mas não perdeu a calma. Gostava de dizer que me sinto um pouco como o artesão, mas não. Sinto-me um pouco como o homem da rádio, sem saber muito bem o que quero perguntar, ao mundo, e sem saber muito bem o que o mundo me quer... |
